quinta-feira, 17 de maio de 2012

O VALOR DA TERCEIRA IDADE PARA A FAMÍLIA


Em geral, em quase toda a casa há, pelo menos, um idoso. Em algumas, há até mesmo um casal de idosos. O fato é que em todas as famílias há sempre pessoas da terceira idade. São o vovô, a vovó, ou um tio ou uma tia que envelheceu e não chegou a ter filhos para deles cuidarem na velhice.
A Bíblia nos dá testemunho a respeito da segurança que uma pessoa pode ter de envelhecer bem e ter o amparo necessário até sua partida deste mundo. Davi, o rei de Israel, faz a seguinte afirmação:

“Fui moço e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência a mendigar o pão” (Sl 37.25).

Na sua casa mora alguém da terceira idade? Na sua família existe um membro da terceira idade? Nos dias de hoje, é um fato presente a convivência direta com alguém da terceira idade. Até porque o número de idosos aumenta a cada ano. E também as condições de vida, saúde e recursos tem sido muito generosas, a ponto de conceder melhores condições para uma boa sobrevivência.
Nesta nossa abordagem vamos procurar abordar a questão do idoso dentro do âmbito familiar. Mas, para isso, é preciso, primeiro, fazer uma rápida abordagem sobre a família.
O Pr Irland, na apresentação do Livro, A FAMÍLIA NA BÍBLIA, de autoria do Pr Gilson Bifano, faz a seguinte afirmativa: “Se desejamos entender a família do ponto de vista cristão, precisamos analisar toda a sua trajetória ao longo dos relatos bíblicos”.
A origem da Família encontra-se no primeiro livro da Bíblia – Gênesis.
Antes da queda do Homem, Deus instituiu a Família, dando-lhe atribuições e responsabilidades.
O Pr Jorge Maldonado, terapeuta familiar, faz a seguinte observação: “O casamento e a família não estão vinculados ao Estado nem à lei e nem ao ato da redenção, mas à criação”.
De acordo com o livro de Gênesis, antes da queda, tanto o homem quanto a mulher tinham privilégios e responsabilidades iguais. Ambos foram criados por Deus, “à sua imagem e semelhança”. Com isto, homem e mulher participavam dos atributos divinos, ou seja: sabedoria, retidão e santidade. Ambos receberam a ordem de cuidar e dominar a terra. Homem e mulher ocupavam um lugar de honra no jardim do Éden. Antes da queda, o primeiro casal vivia em perfeita harmonia.
Após o ato da desobediência, marido e mulher começaram a ter uma nova visão, agora distorcida é claro, da vida, do amor, da sexualidade (Gn 3.7), e começaram a afastar-se da comunhão divina (Gn 3.8);
O primeiro conflito familiar ocorreu sob troca de acusações: ele colocou a culpa nela e ela, por sua vez, colocou a culpa na serpente.
Antes da queda, não havia qualquer sentimento de machismo ou feminismo, muito embora o homem tenha recebido de Deus a incumbência de ser o cabeça da mulher, ou seja, da família.
Podemos dizer que a queda afetou as bases do casamento e da família.
Após a queda espiritual da humanidade a violência se propaga e o clamor das injustiças chega ao céu, diante de Deus:

“A terra, porém, estava corrompida diante de Deus, e cheia de violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra. Então disse Deus a Noé: O fim de toda a carne é chegado perante mim; porque a terra está cheia de violência dos homens; eis que os destruirei juntamente com a terra” (Gn 6.11-13).

Mas a Família é preservada com Noé, pois entram na arca Noé, sua esposa, seus três filhos e suas três noras.
De Noé até Abraão, a família toma um amplo espaço no relacionamento com o Senhor Deus. Surge a família patriarcal, com laços fortes de clã, onde o mais velho é respeitado e obedecido, competindo a ele, inclusive, o juízo sobre os demais membros da família patriarcal.
A família de Abraão, antes da promessa, era formada pelo Pai e seus irmãos. A princípio, o relacionamento dessa família com Deus era perfeito. Mas o local onde eles habitavam não prestava e acabou contaminando a família de Tera, pai de Abraão. Tanto que, após a morte de seu pai, Deus tira Abraão daquele ambiente idólatra:

“Foram os dias de Tera duzentos e cinco anos; e morreu Tera em Harã. Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa do teu pai, para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12.1).

A partir de Abraão, porém,  os olhos do Senhor são fixados para a herança familiar – os filhos.
Enquanto não nasce Isaque, o verdadeiro herdeiro da Promessa, o Senhor não larga do pé de Abraão.
Antes de falarmos um pouco mais sobre as características das famílias patriarcais, podemos afirmar que o mesmo cuidado que Deus demonstrou para com a família de Noé também demonstrou para com a família de Ló.
Vamos procurar ver agora a questão do idoso dentro do âmbito familiar.
Há duas realidades intrínsecas no que diz respeito ao relacionamento da família com os integrantes da terceira idade:
1. O idoso tem suas necessidades e suas expectativas de vida, pelo tempo que ainda lhe resta sobre a face da terra.

2. A família nem sempre entende esse processo pelo qual o idoso passa durante essa expectativa de vida.
A família, de um modo geral, pode ser definida como um grupo enraizado numa sociedade na qual adquire certas responsabilidades sociais.
Atualmente, a família vem assumindo um papel importante no relacionamento com os seus idosos, à medida que o envelhecimento da população se verifica cada vez mais acelerado. Isso, inclusive, ainda é pouco estudado pelas ciências sociais.
A Constituição Federal de 1988 apresenta a família como base da sociedade e coloca como dever da família, da sociedade e do Estado “amparar as pessoas idosas assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem estar e garantindo-lhes o direito à vida”.
Neste sentido, cabe aos membros da família entender essa pessoa em seu processo de vida, de transformações, conhecer suas fragilidades, modificando sua visão e atitude sobre a velhice e colaborar para que o idoso mantenha sua posição junto ao grupo familiar e a sociedade.
No início, quando ainda os pais são jovens e até a meia-idade, eles é que cuidam dos filhos, provêm para eles os seus estudos e sua formação; Mas, depois de criarem os filhos, os pais entram na terceira idade envelhecem cada vez mais até o dia da sua partida deste mundo.
Pergunta-se: O que eles podem esperar de seus filhos e netos? Serem enviados para um asilo? Serem abandonados?
Voltando à Palavra de Deus, Davi afirma que nunca viu o justo ficar desamparado na velhice.
Na família patriarcal, isso jamais ocorreria, já que o patriarca era assistido não só pelos filhos e netos, como pelos seus mordomos e empregados.
Abraão deixou este mundo aos 175 anos de idade, em boa velhice. E foi sepultado pelos seus dois primeiros filhos – Isaque e Ismael.
Jacó também deixou este mundo aos 147 anos de idade e em boa velhice, também assistido pelos seus filhos e netos.
A família patriarcal mantinha o respeito e cuidava de seus idosos. Isso é refletido não só no testemunho de Davi, mas no testemunho que o apóstolo Paulo dá a respeito da avó de Timóteo.
“Trazendo à memória a fé não fingida que há em ti, a qual também habitou primeiro em tua avó Loide e em tua mãe Eunice e estou certo de que também habita em ti” (2 Tim 1.5).

Com as fragilidades que muitas vezes acompanham o processo de envelhecimento é comum surgirem conflitos entre os filhos quando a situação dos pais passa a lhes exigir novas responsabilidades e cuidados.
Mas a Palavra de Deus recomenda o cuidado para com os idosos, de um modo geral, e, em particular, dentro da família.
Olha o que Paulo recomenda a Timóteo:

“Não repreendas asperamente a um idoso, mas admoesta-o como a um pai...” (1 Tim 5.1).

É preciso que as famílias respeitem as necessidades da terceira idade, para que os idosos, no caso, seus pais, não se sintam um encargo para os filhos.
Por outro lado, os idosos devem se esforçar para não se deixar entregar à inatividade mórbida, buscando evitar, o máximo possível, o sentimento de dependência da família que, em geral, aflige o idoso.
Em geral, os idosos estão sempre naquela expectativa de receberem atenção e cuidados dos filhos e netos no momento em que perderem ou tiverem suas capacidades diminuídas, sendo este um fantasma constante a perseguir e preocupar os mais velhos.
Há algumas décadas atrás, o hiato entre os jovens e os idosos era muito amplo. Mas, com o tempo, novas condições de vida estão permitindo uma convivência mais estreita entre jovens e idosos.
À medida que a expectativa de vida aumenta, os de meia-idade se relacionam com os jovens e com os idosos, de modo que eles aprendem melhor a se relacionar uns com os outros.
A dependência entre as gerações, ao que tudo indica, se revela de duas naturezas distintas: de um lado a dependência material dos filhos que por precisarem cada vez mais e por mais tempo da proteção dos pais, não hesitam em aceitá-la, até por entenderem como obrigação. Do outro lado a dependência emocional dos pais, fruto do modelo familiar estabelecido. Neste modelo a família é entendida como uma forma natural de organização da vida coletiva, uma instituição estável da sociedade, sendo a união entre seus membros a principal responsável pela integração e harmonia da vida familiar.
Essa dependência se caracteriza no que se pode chamar de acordo tácito, ou seja, uma negociação na qual os pais acalentam a expectativa de obter no momento que necessitarem a retribuição pela dedicação oferecida à família.
As mudanças que estão ocorrendo nas representações de família nas novas gerações estão exigindo formas alternativas de convívio familiar e consequentemente a reformulação de valores e de conceitos.
A família brasileira do terceiro milênio está cada vez mais distanciada do modelo tradicional, no qual o idoso ocupava lugar de destaque. Estamos vivendo um importante período de transição e mudanças, no qual se faz necessário o entendimento das transformações sociais e culturais que vem se processando nas últimas décadas, para enfrentarmos o nosso próprio processo de envelhecimento dentro de expectativas condizentes com as novas formas de organização familiar. No entanto, qualquer que seja a estrutura na qual se organizará a família do futuro, há a necessidade de se manterem os vínculos afetivos entre seus membros e os idosos. Nesta fase da vida, o que o idoso necessita é sentir-se valorizado, viver com dignidade, tranquilidade e receber a atenção e o carinho da família.
Nesse relacionamento dos idosos com os jovens na família, temos que destacar a posição do sogro e da sogra e, consequentemente, do genro e da nora.
A Bíblia nos dá alguns exemplos.
Jetro foi um bom sogro. Ao ver a situação do genro na tomada das decisões junto aquele povão, ele dá alguns conselhos a Moisés, seu genro.
Já o sogro de Jacó – Labão – não foi um bom sogro. Explorou seu genro durante cerca de 21 anos e ainda queria matá-lo porque Jacó simplesmente queria independência daquela vida mesquinha.
Noemi, sogra de Rute, foi uma boa sogra. Sua nora se afeiçoou dela e pôde aprender muito com ela, com sua vida e testemunho acerca de seu Deus, tanto que ela não procurou outra coisa senão ficar com sua sogra e ser admitida como filha.
Sogros e sogras, sejamos como Jetro e Noemi, que viveram uma vida útil, chegando a agradar a Deus nos seus aconselhamentos a seus genro e nora respectivamente.
Genros e noras, sejamos como Moisés e Rute, que souberam ouvir seus sogros e sogras em momentos sérios de tomada de decisões. 

sábado, 14 de abril de 2012

A GRAÇA NO ANTIGO E NOVO TESTAMENTOS

Graça - Favor imerecido.  
A graça nos foi outorgada por Deus na Pessoa de Nosso Senhor e Salvador Jesus-Cristo, como prova de sua misericórdia para com os escolhidos, sendo tal concessão um reconhecimento não de nossas obras meritórias, mas de nossa necessidade, pois éramos por natureza filhos da ira e, como tal, endereçados ao inferno.


Como pretendemos falar sobre tão importante assunto, cumpre-nos esboçar, de modo expositivo, a atuação da graça nas diversas épocas em que fomos visitados pela Providência Divina, pela promessa até os dias de Cristo, quando tal graça se manifestou sobremaneira patente entre nós, como escreve Paulo aos gálatas: “Vindo, porém, a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” (Gal 4.4).

Destarte, abrangeremos, em primeiro plano, as manifestações da graça no Antigo Testamento, a qual, muito embora tivéssemos estado sob a maldição da Lei, se fazia presente em forma de promessa, e promessa d’Aquele que nunca falha.

A GRAÇA NO ANTIGO TESTAMENTO

O estudo da graça no Antigo Testamento começa na vida de Adão, nosso primeiro pai.
A princípio, cremos na eleição de Deus para conosco, sendo nós escolhidos pela Sua preciente sabedoria.

Isso vem a ser provado pela primeira providência de Deus após a queda do homem.
Quando o homem, no seu estado de pecado, via-se na urgência de ser cuidado para não vir a permanecer eternamente perdido, completamente fora da Sua presença. Aqui podemos ver a manifestação da Graça através desse ato singular e sem precedente. Podemos ver ali o eterno cuidado, o eterno zelo, a eterna vontade refletida naquele ato de demonstração da graça.

Outra manifestação viva e patente na vida de Adão, com referncia à graça, encontra-se narrada em Gên 3.15, quando, tomando outra providência em prol do homem, Deus, o Zeloso, profere a promessa da vinda do Messias ao mundo, que seria o cunprimento da nanifestação da graça na vida do homem.

Temos, também, implícita na vida do homem, outra manifestação da graça, quando por ocasião do nascimento de Sete, por cujos ato e vida seríamos abençoados, pertencendo, destarte, ao tronco genealógico da graça, visto ser ele o ramo pelo qual haveriam de descender os filhos da obediência, que passariam, daquele momento em diante, a invocar o nome do Senhor, e seriam, mais tarde, na pessoa do justo Noé, conservados para geração de uma nova vida.

O Senhor Deus, ao ver que essa nova geração, isto é, os filhos de Sete, havia se corrompido juntamente com os demais filhos de Cain, não havendo diferença de modo de vida, mas todos haviam se corrompido, tal qual fala Gên 6.5-7, dispôs-se a acabar com a raça hurnana. Para tanto, enviou à Terra o dilivio que a todos fez desaparecer, conservando unicamente a família do justo Noé, com o propósito de conservar na Terra o homem que criara com todo amor e carinho e à Sua imagem e semelhança.

Na conservação de Noé e sua família vemos, de nodo patentete, a manifestação da graça mais uma vez beneficiando este homem tão mau, mas tão querido por Deus, o seu Criador. Desta família haveria de nascer o Justo que Justificaria a muitos.

Não tarda muito e vemos putra vez a graça de Deus se manifestando na vida do homem, na pessoa de Abraão, quando Deus lhe faz a fiel Promessa, para dele fazer uma grande e bendita nação.

Podemos dizer mesmo que nem nos trezentos e poucos anos que conhecemos como período interbíblico, esta graça deixou de atuar. E como atuou, de tal modo que vislumbrou a tantos que vieram a conhecer sua história e continuará vislumbrando outros que ainda hão de conhecê-la e estudá-1a.

Em Abraão, Deus faz um novo pacto com o homem que criara, pacto esse que dizia respeito  à organização de um povo escolhido, para servir num Santo e Real Sacerdócio, a fim de refletir a Sua graça sobre todos, uma vez que, na realização do pacto abraâmico, Ele prometera fazer dele uma bênção, dizendo, ainda, que nele seriam benditas todas as famílias da Terra.

Podemos ver nesse ato mais uma vez a mão de Deus presente, visto que, pela atuação desse povo e pela sua descendência, Ele haveria haveria de trazer a realização da graça sobre todos os homens.

Outra ocasião na qual nos foi manifesta a graça de Deus foi por ocasião da servidão do povo de Israel no Egito. Ali estava um povo que se multiplicaria no deserto do Sinai, até chegar a ser um povo qual as areias do mar, tal e qual o da promessa divina.

Israel está sendo afligido. Mas, na realidade, Deus estava vendo tudo isso, aguardando, tão someente, que o povo que habitava a terra que, por promessa, pertencia a Israel, completasse a medida de suas iniquidades, para que, numa ação justa e reprimente, Ele expulsasse aquele povo, para dar então a terra de Canaã ao Seu povo (Gên l5.l6).

No nascimento de Isaque, filho de Abraão, vemos mais uma vez, patente, a mão de Deus, quando Ele promete que dele faria a sucessão da geração de Abraão. E em Isaque repete-se mais uma vez a promessa.

Com Jacó também vemos a mão de Deus operando milagrosamente, dando-nos as doze tribos que seriam os possuidores efetivos da terra prometida à Abrãao, a Isaque e Jacó, seus pais.

A graça de Deus se há menifestado e sempre haverá de manifestar-se, mesmo na eternidade, quando, segundo um dos câtnticos captados por João na sua visão celestial, haveremos de sempre bendizer o Santo e Bendito Cordeiro, autor da nossa Salvação.

Quão maravilhosa é a graça de Jesus, o nosso Deus! Quão maravilhosa ela se nos apresenta, com seus ares transmissores de amor genuíno e puro!

Para compreendermos a extenão da graça de Cristo, mister se faz que humildemente cheguemos a Ele com atitude de oração, e perseverando nesta atitude, então, é que poderemos analisar pessoalmente a manifestação da graça que ao nosso redor se faz presente.
Quando o povo de Israel já não contava mais com o amparo de Deus, quando já não se ouvia claramente a anunciação das promessas divinas, então Israel se viu diante de um milagre. Ele não se lembrou, propriamente, do Seu Povo; pelo contrário, Ele jamais se esqueceu do Seu Povo. Lembremos de Sua palavra: “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor” (Is 55.8).

Na pessoa de Moisés, podemos ver mais de perto a manifestação da graça, quando, então, o Senhor Deus o prepara cerca de oitenta anos para aproveitá-lo apenas quarenta. É para o Seu serviço que Deus o preparou. Para proveito nosso; para nossa bênção.

O êxodo pelo deserto, a vitória sobre os vários povos que contra eles se opunham, a passagem do povo pelo Mar vermelho, tudo isso são manifestações da graça.

A centralização do reino davídico nada mais é do que uma manifestação da graça de Deus, pois, com o estabelecimento desse reino, reforço é dado às benditas promessas, quando o Senhor Deus garante que o Cetro jamais se arredaria de Judá, tal e qual Ele prometera em Gên 49.10, por boca de Jacó.

Desde então, jamais se afastou o cetro da casa de Davi, mesmo na terra, pois, quando o último dos reis foi levado cativo para a Babilônia, e quando se pensava que o concerto divino fora quebraclo, eis que Zorobabel deixa Babilônia, por ordem do Rei, com a nissão de reedificar, juntamente com Neemias, a cidade de Judá, o templo e os muros de Jerusalém (Esd 2.1).

Jesus-Cristo homem é a prova de que jamais se arredaria o cetro da casa de Davi, pois, sendo Ele da descendência de Davi, nós, coerdeiros com Ele, somos também da família Real.
Mas a graça não fica apenas nas manifestações proféticas e futurísticas. Ela toma corpo na pessoa do nosso querido e amorável Salvador Jesus-Cristo, quando do seu nascimento.

A GRAÇA NO NOVO TESTAMENTO
 
Lembremos da promessa de Gên 3.15 – A semente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente. E tal não deixou de acontecer com Cristo, pois Ele veio ao mundo com a finalidade de anular o poder do diabo sobre os filhos de Deus pela Graça de Cristo.


O nascimento de Jesus marca para o crente o início de uma vida futura, não utópica, mas realíssima, na qual todos os que estivermos n’Ele viveremos abundantemente.

Belém foi a cidade escolhida por Deus para ser o local onde haveria de se manifestar materialmente a Graça. Materialmente, em contraste com a natureza espiritual da Graça que não se limita  a local e sim que é infinita e i1imitadamente presente, independente de espaço e de tempo.

Israel foi o povo, Judá a tribo e Jesus o veículo pelo qual haveria de ser manifesta a graça na sua plenitude.

Na anunciação do nascimento de João Batista, vemos presente a graça, preparando o terreno para que em Cristo ela se confirmasse cada vez mais.

No Batismo de Jesus Cristo por João Batista, quando o Senhor Deus, ao sair Cristo das águas do rio Jordão, lhe confere o título de “O MEU AMADO”, sentimos a manifestação da Graça mais uma vez se realizando na vida do homem.

Na tentação de Jesus, quando temos ali o ensinamento de como vencermos a tentação do Diabo, vê-se também a maravilhosa graça cuidando de nós, pecadores.

Na escolha dos seus discípulos, quando Ele escolhe os que haveriam de levar avante, com o risco de suas próprias vidas, esse Evangelho precioso, temos, mais uma vez, a manifestação da graça.

Os milagres nada mais são do que prova dessa genuína graça que nos traz a bendita alegria de sentirmo-nos auxiliados por Deus, e que Deus jamais se esqueceu de nós, como poderíamos pensar se jamais Ele se nos manifestasse a nós.

Podemos ver, destarte, a manifestação da graça divina na encarnação do Verbo, quando Deus vem habitar consoco, tabernaculando entre nós, vendo nós a sua Glória patenternente.
Na transformação da água em vinho, no encontro da mulher samaritana e sua consequente conversão, na multiplicação dos pães em ambas as ocasiões narradas na Santa Escritura, na ressurreiça de Lázaro sim, na ressurreição do filho da viúva de Naim, na promessa do outro Consolador, na oração sacerdotal de Cristo, na crucificaçâo, morte e ressurreição de Cristo, podemos ver a manifestação total da Graça de Deus, em Cristo, superabundando em os nossos corações.

No pentencostes, na conversão de Saulo de Tarso em Paulo, apóstolo de Nosso Senhor Jesus Cristo, na conversão de Cornélio, um gentio, nas prisões de Paulo, Pedro, Silas e João, podemos verificar a manifestante graça por entre esses eventos tão importantes para nós.
Em Romanos 3.23, Paulo escreve, dizendo que nós somos justificados pela graça, gratuitamente, através da redenção que há em Cristo Jesus. Ora, a graça está implícita no termo “gratuitamente”, visto que de um modo gratuito Jesus nos redimiu para todo o sempre. Porérn, o termo graça transcende a compreenso do que está inserido no primeiro termo, visto que, além de não exigir preço ou algum material em troca, Ele ainda se deu mais, quando por si mesmo fez a redenção dos justificados.

A LEI E A GRAÇA

A Lei está em permanente conflito com a graça, visto que não há nehuma harmonia entre a culpa e o perdão.

A Lei foi a culpada da morte espiritual e material do homem, segundo verificamos na declaração de Paulo, quando diz que não conheceu pecado, senão pela Lei.

No capítulo 4 vemos o contraste que existe entre a graça e a Lei, e o modo como Paulo encara ambas, isto é, numa antítese paralela, se assim podemos dizer, pondo em evidência os dois extremos.

Conforme lemos no referido texto, a Lei não foi o meio pelo qual a promessa da descend~encia de Abraão chegou até ele. Pelo contrário, ela lhe foi indicada mediante a Justiça e a Fé. Se a Lei imperasse sobre a graça e, consequentemente, os herdeiros da primeira é que fossem os verdadeiros herdeiros de Abraão, seriam nulas, então, a graça, a fé e a promessa.

Paulo garante que,”Justificados por Cristo Jesus, temos paz com Deus”, pois foi por Sua intervenção que alcançamos a graça na qual nos encontramos no tempo presente.

Pela ofensa de um, veio a morte sobre todos os homens. Pela graça, veio a infinita mnisericórdia e a bênção para perdão dos nossos pecados dantes cometidos e eterna paráclise dos que, involuntariamente, formos cometendo.

O pecado jamais terá domínio sobre nós, pois que não estamos mais debaixo da Lei e, sim, debaixo da graça. E isso porque, onde abundou a Lei, ou melhor, o pecado, superabundou a graça.

Em Suma, pelo que ficou exposto:

Verificamos que éramos etenamente perdidos, endereçados ao fogo do inferno;

Verificamos também que, em Adão, só tínhamos a esperança acima mencionada;

Verificamos ainda que, em Cristo, o segundo Adão, espiritual, temos a justificação dos nossos pecados e através da graça;

Verificanos, finalmente, que a Lei não salva ninguém e, sim, somente a graça salvadora de Jesus Cristo pode nos garantir o perdão e a salvação eterna.

Maravilhosa Graça!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Exegese Acadêmica e Exegese Pastoral

Para os estudantes da Bíblia, que desejam se orientar melhor na busca do recado que o Senhor tem para compartilhar com os demais irmãos de nossas igrejas ou com aqueles que necessitam de salvação, sedentos da água da Vida que é Jesus Cristo, fica o seguinte recado:

Exegese Acadêmica – é aquela que busca estudar o texto sob todos os aspectos que envolvem o seu conhecimento. Nela, o texto bíblico é analisado, partindo-se do texto original ou autógrafo.

Os textos do Antigo Testamento encontrados na Bíblia do exegeta são confrontados com os respectivos textos na Bíblia Hebraica, enquanto os do Novo Testamento encontrados na referida Bíblia são confrontados com os respectivos textos do Novo Testamento Grego.

O objetivo da exegese acadêmica é “saber do texto em si e por si mesmo”[1]. Sua meta é atingir os especialistas e estudantes da Palavra de Deus que buscam compreender o texto mais profundamente. O exegeta, neste caso, se vale dos dicionários, léxicos, analíticos, e de comentários de outros exegetas que já fizeram uma análise anterior do texto a ser abordado.

O preparo para o exegeta acadêmico vai desde o conhecimento da língua em que foi escrito o texto a ser abordado até o mais aprimorado conhecimento linguístico e filológico contido por trás do referido texto. Para tanto, outras leituras além da Bíblia Hebraica, no caso do Antigo Testamento, e do Novo Testamento Grego deverão ser feitas, visando à consolidação do sentido significântico[2], bem como do valor semântico encontrado nos termos constantes do texto abordado.

Embora haja livros especializados em comentários bíblicos, alguns até de versículo por versículo, nem sempre o texto lido encontra uma pura análise anteriormente feita, revelando total conhecimento na abordagem de termo por termo em cada versículo bíblico. Basta dizer que em cada Bíblia que ostenta uma determinada versão, não é raro encontrar-se falhas na abordagem de um texto ou termo, após um exaustivo preparo para elaboração de uma determinada edição.

Alguns exemplos este exegeta, ora professor desta disciplina, tem apresentado em alguns escritos, buscando alertar os estudantes da Bíblia para uma exegese sólida que não deixe resultados a desejar aos leitores da Bíblia.

1º exemplo: A Bíblia na versão SHEDD, em Êx. 14.8, traduz a expressão beyadh ramah como “afoitamente”. Já em Núm. 33.3, ela traduz a mesma expressão como “de mão elevada”. Este é, pois, o sentido real desta expressão. Por conseguinte, a leitura de Êx. 14.8 está equivocada. Chega a revelar um outro sentido que não o pretendido por Moisés, ao escrever o texto em lide.

2º exemplo: A mesma versão (SHEDD), em Êx. 21.8, traduz a expressão  ’asher lo’ ye’adahe como “que se comprometeu a desposá-la”, quando o texto claramente emprega o advérbio negativo (lo’) que dá o sentido como “que não a desposou”.

3º exemplo: A mesma versão (SHEDD), em Lev. 18.18, traduz o termo ahhotahe (sua irmã) pelo termo “outra”. Ao que parece, houve um equívoco na tradução do termo ahhotahe (sua irmã), que provavelmente foi confundido com o termo ahheret (outra).

A versão Shedd, portanto, assim lê: “E não tomarás com tua mulher outra, de sorte que lhe seja rival, descobrindo a sua nudez com ela durante sua vida”.

Todavia, pelo texto hebraico, a tradução é: “E não tomarás uma mulher juntamente com sua irmã, durante a vida desta, para tornar-lhe rival, descobrindo a sua nudez ao lado da outra”.

4º exemplo: A mesma versão (SHEDD), em Lev. 11.20, faz a seguinte leitura: “E todo inseto que voa vos será imundo; não comereis”. Esta interpretação coloca o profeta João Batista como exercendo seu ministério e sendo imundo todo o tempo em que andou pelo deserto da Judéia.

Felizmente, o texto hebraico, embora use o termo sherets que é algumas vezes substituto de remes, está se referindo a répteis e não a insetos, já que o gafanhoto é um animal limpo para os judeus, segundo a lei mosaica.

Traduzir o texto bíblico requer conhecimento linguístico do idioma em que o texto foi escrito. Não se pode descurar disso. É a Palavra de Deus.

Os exegetas que se cuidem, pois, poderão estar interpretando o texto equivocadamente, devido a estes deslizes.
  

Exegese Pastoral – é aquela que se limita aos aspectos do texto cujo conhecimento se revela necessário para compreender o conteúdo e permitir a atualização da mensagem. Nela, o exegeta procura estabelecer uma certa ordem de precedência conforme o grau de importância que possa ter determinada informação sobre o texto para atingir seu conteúdo.

Em termos de pesquisa, a exegese acadêmica está para a pesquisa pura, assim como a exegese pastoral está para a pesquisa aplicada. E tratando-se da aplicação do texto a ser discutido ou pregado, faz-se mister que haja na biblioteca consultada obras que sejam bem intencionadas e versões que mais se aproximem do texto original ou autógrafo.

Assim entendendo, mister se faz também a busca do conhecimento revelativo que só o poder da oração pode dar, uma vez que o Espírito Santo nos foi dado para nos tornar aptos para entender os ensinos da Palavra de Deus, seja no Antigo ou no Novo Testamento.

Uma vez munidos destas ferramentas e com a unção do Espírito, busquemos entender a Palavra que será pregada ou ministrada como ensino, para que atinja o objetivo pretendido.



[1] SIMIAN, Horacio. Metodologia do Antigo Testamento (2000), Ed. Loyola, São Paulo, p. 14.
[2] Relativo ao termo significante, que traz o sentido primeiro, ou seja, o denotativo.

sábado, 10 de março de 2012

DISCREPÂNCIAS NA CRONOLOGIA BÍBLICA

De acordo com o TM (Bíblia Hebraica), se Adão estivesse vivo hoje, estaria com 6136 anos de idade. Já de acordo com a LXX (Bíblia Grega usada pela Igreja primitiva), Adão estaria com a idade de 7601 anos.

Onde reside esta discrepância cronológica? Esta é uma boa pergunta, uma vez que, no mundo antigo, cada povo ou nação tinha sua própria contagem de anos (Anus Mundi), cuja referência para os Ocidentais é o calendário Romano, ao passo que, para os Orientais (Extremo Oriente), é a ascensão de Buda, para uns e a organização da nação, para outros. Para os do Oriente Próximo, a coisa é mais apertada ainda, já que, para os Islâmicos, é a Hégira (Fuga de Meca por Mohamed); para os Iranianos, é o calendário Persa, instituído no ano 622 da nossa era; e para os Hebreus, é o calendário judaico adotado durante o cativeiro babilônico (586 a. C.), tendo como base para o ano 1 a data de 3.761 a. C., data esta considerada o início de Israel como nação.

Todavia, de acordo com a cronologia do TM, o ano 3.761 coincide com o ano em que Cainã, filho de Enos, teria 37 anos de idade. Já de acordo com a LXX, coincide com o ano em que Noé teria 187 anos. O que se pode observar é que a cronologia bíblica segundo a LXX é a mais próxima da verdade histórica, já que, segundo os relatos rabínicos, a nação de Israel teria surgido num determinado momento histórico em que uma profecia feita a Noé, o patriarca do novo Mundo, dizia respeito à constituição de Israel após o juízo sobre a humanidade que vivia antes do Dilúvio.

Segundo os ensinos rabínicos, a chamada de Abraão já fora predita a Noé (pouso, descanso de fadiga excessiva), em que o Eterno (Ehweh), o Eu Sou,[1] lhe teria declarado seu Propósito em dividir a terra de modo que Israel fosse plantado na área que seria a terra Prometida. Mais tarde, Pélegue (divisão, partição), pentaneto de Noé, seguindo o oráculo, em que uma revelação profética fora feita a seu pai (Heber), em cumprimento, providenciou a divisão da terra, na qual se estabeleceria o povo da Promessa feita a Noé. Nesta ocasião os cananeus começaram a se instalar na Canaã, para onde também acorreram os filisteus, ao saírem de Caftor, após terem sido libertados de seu primeiro cativeiro[2], levados de sua terra de origem – Caslui. Ao chegarem à Canaã, apossaram-se dos territórios litorâneos desde Gaza até Jope, destruindo os heveus e habitando em suas habitações.

Se esta pesquisa for correta, os Hebreus teriam realmente, hoje, 5772 anos e irão completar 5773 após as 18 hs do dia 13 de Setembro deste ano.



[1] Ehweh (forma aramaica que corresponde ao hebraico Ehyeh) é o nome adotado pelos sacerdotes pós-cativeiro para substituir Yhveh (hebraico Yhyeh). Esta forma verbal corresponde à 3ª pes. sing. masculino do verbo Hawah (hebraico hayah), portanto ‘Ele é’. Porém, o nome declarado a Moisés encontrava-se na 1ª pes e não na 3ª, como consta nas passagens após este encontro. Yahweh é mais linguístico do que filológico, já que translitera a pronúncia aramaica onde o shevá simples soa como o pathah furtivo (a), ao invés de (e). E para não grafar o Nome, o que seria uma irreverência para eles, foi adotado o tetragrama YHWH com a pronúncia de Adonai, donde Yehovah. Este articulista prefere Ehweh (Eu Sou).
[2] O segundo e último foi por Nabucodonozor, que os deportou para Babilônia

sexta-feira, 2 de março de 2012

O ATREVIDO VOTO DE JEFTÉ

Há alguns dias atrás, ouvi de alguém que o voto de Jefté foi cumprido à risca, tendo sua filha permanecido solteira por toda a sua vida. Mas, terá sido esse o voto de Jefté?  

O interessante é que um programa de TV que discute assuntos polêmicos de cunho religioso ou social, tratou desse mesmo assunto há alguns meses e houve quem interpretasse o texto dessa mesma forma, baseando seu argumento no fato de que o Senhor nunca pediu o sacrifício de alguém como holocausto. É como negar a presença dos anjos rebeldes de que fala Judas em sua Epístola, que pecaram entregando-se à imoralidade, sensualidade e dissolução, argumentando, para tanto, que no Céu seremos iguais aos anjos que não se casam nem se dão em casamento.

Um determinado site de características judaicas afirma que Javé nunca aceitaria o sacrifício de um ser humano, porque já havia determinado em Lev. 18.21 "...E da tua semente não darás ninguém para ser dedicado a Moloque..." e em 20.2: "Qualquer dos filhos de Israel... que der de seus filhos a Moloque, será morto; o povo o apedrejará.

Sem qualquer regra hermenêuica ou memo exegética, tenta-se comparar o Senhor Deus a Moloque, uma entidade cananéia que, segundo eles, era senhor da vida e da morte e cuidava da agricultura e da fertilidade no campo e nos casamentos.

Todavia, qual foi o voto de Jefté e porque ele o cumpriu à risca? Primeiramente, é bom lembrar que em Lev. 27.29, o Senhor determina: “Todo ser humano que for devotado como anátema[1] ao Senhor não poderá ser resgatado. Certamente morrerá”.

O voto de Jefté foi nos seguintes termos: “... Se, com efeito, me entregares os filhos de Amom na minha mão, aquele que sair pela porta da minha casa ao meu encontro, ao retornar vitorioso dos filhos de Amom, será do Senhor, e eu o oferecerei em holocausto”.

Jefté não imaginava que sua filha, única filha, sairia pela porta da sua casa, dançando radiante e com instrumento de som, louvando ao Senhor pela certeza da vitória do seu povo liderado pelo seu pai. Ele se sentiu perturbado diante da seriedade com que os votos eram tratados, uma vez pronunciados. Não havia outra saída, senão cumprir o voto declarado solenemente, e Jefté sabia disso – “vehayah layhovah veha‘alithihu ‘olah” (e será para o Senhor, e [eu] o oferecerei (farei subir)[2] em holocausto.

Sua filha pediu dois meses para chorar a sua virgindade e ele o concedeu. Ao fim dos dois meses, ele fez segundo o voto que proferira temerariamente. E ela foi imolada.

Um dos midraxes do povo do norte, descendente da família gileadita, descreve uma coreografia interessante, já que a morte desta jovem foi inevitável – daí o midraxe, no qual lamenta-se sua morte e sua dedicação ao Senhor, e por ter morrido virgem.
Os cristãos da Igreja grega Ortodoxa têm uma tradição em que Maria, ao ser entregue pelos que a traziam do templo de Jerusalém para José, o detentor da herança bacuriana  - primogenital davídica – sendo ele o único que fazia jus em resgatá-la, permaneceu ela por este tempo virgem, antes de ser possuída por José. E foi durante esse tempo que ela se achou grávida pelo Espírito Santo. Oh, Glória!


[1] O termo empregado no texto hebraico é hierem (lê-se rérem), da mesma raiz de hiormah (anátema).
[2] Trata-se do verbo ‘alah, no causativo, isto é, ‘fazer subir’. O emprego do verbo é metonímico, ou seja, toma a parte pelo todo: o sacrifício é enviado para o céu, daí ‘olah (holocausto).

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

TU ESTAVAS ALI

De Wilson Carlos S. Lima


Na criação deste mundo,
na formação do Jardim,
sentimos Tua presença,
pois Tu estavas ali.

Na formação de Israel,
na condução pelo deserto,
sentimos Tua presença;
ali estavas, de certo.

Na chegada a Jericó,
na conquista de Salém,
sentimos Tua presença;
ali estavas também.

Nas empresas de Sansão,
na sua final vitória,
sentimos Tua presença;
ali estava Tua glória.

Na luta com os filisteus,
na vitória de Davi,
sentimos o Teu poder;
sim, Tu estavas ali.

No forno de fogo ardente,
com os amigos de Daniel,
sentimos, incontinente;
lá estavas, Emanuel.

Na triste Jerusalém,
Aos pés da “maldita” cruz,
sentimos que Te afastaste,
pois lá estava Jesus.

No ato, porém, sublime,
olhando dos altos céus,
sentimos Tua presença,
pois lá estavas, ó Deus.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A ETERNA COMPAIXÃO DE DEUS PELO SEU POVO

Poucos livros proféticos da Bíblia começam com a expressão “Palavra do Senhor” (debhâr Yehovâh). Apenas Jeremias, Oséias, Joel, e Miquéias possuem essa característica. Jonas contém a referida expressão, porém introduzida pelo verbo “ser” (hâyâh) no Incompleto e com o vav consecutivo agregado (vayhî), o que indica continuidade em uma narrativa iniciada anteriormente. Oséias pertence ao grupo dos Doze Profetas Menores, assim chamados, não pela importância de seus respectivos ministérios, mas pelo pequeno volume de seus livros em comparação aos dos quatro profetas conhecidos como “maiores”, por conterem respectivamente narrativas mais extensas.

O nome "Oséias" significa Salvação (hôshêa‘). É o nome do profeta, personagem do livro que tem seu nome. Esse profeta exerceu todo o seu ministério no Reino do Norte, conhecido na Bíblia como Israel. Outra denominação dada a esse reino, inclusive pelo próprio profeta, é Efraim, termo esse que o profeta usou para, de uma forma poética, mostrar a gravidade do comprometimento de Israel com o culto cananeu, haja vista que Efraim continuou livre durante algum tempo após a conquista do Reino do Norte (Israel), vivendo segundo os costumes dos cananeus e ferindo a Lei de Deus, ao cometer pecados de idolatria e injustiça social[1].

Oséias, filho de Beeri, era contemporâneo do Profeta Amós, tendo profetizado em meados do século oitavo a. C. É interessante que Amós tenha profetizado um juízo divino sobre Israel, sem revelar o inimigo através do qual Jeová traria tal juízo (Am 3.11; 7.11). Mais interessante ainda é que Oséias identifica esse inimigo como a Assíria (Os 7.11,12; 8.9; 10.6; 11.11).

Nenhuma outra fonte fornece dados sobre esse profeta, a não ser seu livro. E, a considerar  os  termos  do  primeiro  verso  do  primeiro  capítulo, onde  se faz citação dos reis  

em cujo período ele profetizou, Oséias deve ter exercido seu ministério por cerca de 38 anos[2]. Curioso ainda  é o fato  de que Oséias é o único profeta do Reino do Norte a deixar escrito um livro contendo o registro de seu ministério profético com suas profecias endereçadas primariamente a Israel e, de modo bem particular e indireto, a Judá[3], onde, provavelmente, tenha sido escrito o livro, tendo em vista a queda de Samária (722-721 a.C.). Seu livro consta de uma coleção de 12 livros, coleção esta que integra o chamado Livro dos Doze[4].

O pano de fundo que envolve o cenário no qual se desenrola o ministério profético de Oséias é de uma tragicidade até então ainda não contemplada pelo povo de Israel. O período se estende do reinado de Jeroboão II a Oséias (homônimo do profeta), abrangendo um período de 38 anos. Após a morte de Jeroboão II, seis reis governaram Israel por um período de 25 anos, período esse em que o Reino do Norte agonizava diante dos seus inimigos. O golpe final estava para ser dado, e Oséias, o profeta, viveu até os dias finais desse reino.

Quatro dos reis que se sucederam após Jeroboão II foram mortos pelos seus sucessores que usurparam o trono. Foram eles Zacarias, Salum, Pecaías e Peca. Oséias, o último, foi capturado em plena guerra. Apenas Menaém conseguiu ser sucedido por seu filho, Pecaías. “Esses reis, dados por Deus a Israel ‘na sua ira’ e tirados ‘em seu furor’”[5], marcaram um período de desordem tanto espiritual como moral e psicológica no meio do povo, período esse em que reinava anarquia e confusão[6]. 

Contemporâneos ao profeta Oséias foram Isaías e Miquéias, no Reino do Sul (Judá) e Amós, em Israel, com mensagens fortes e envolvidas com a destruição ora de Judá, ora de Israel, e com sua respectiva restauração.

Oséias viu a desintegração do Reino do Norte, quando apenas Efraim e Manassés permaneceram nas mãos do rei de Israel até sua cabal conquista pela Assíria (722-721 a. C.)[7],  devido a uma política de rebeldia, insurreição e busca de auxílio vão ao Egito.



O simbolismo



Semelhante  a  Isaías, Jeremias  e Ezequiel, Jeová  emprega o método  do simbolismo

para entregar a sua mensagem ao seu povo. O casamento de Oséias com uma mulher adúltera simbolizou para Israel o amor de Deus ao seu povo mesmo infiel ao pacto do Sinai[8]. A frustração e a tristeza  do profeta serviu de matéria querigmática para anunciar o castigo e propor o perdão de Deus a seu povo[9].

Nessa união simbólica, Gômer e seus três filhos – Jizreel, Não Compadecida (lô’ ruhiamah) e Não Meu Povo (lô’ ‘ammî) – retratam a infidelidade de Israel para com seu Deus e a fidelidade de Deus para com seu povo que, por amor, castiga e espera o arrependimento e o retorno aos seus braços amorosos.

É proposital o não emprego do maqqeph (-) para unir o advérbio “não” (lô’) aos termos aos quais seria obrigatória a sua agregação, no estado construto. No caso em lide o simbolismo realça a gravidade da mensagem, indicando a “ameaça” de Jeová a seu povo antes da sua consumação e do objetivo proposto. A linguagem do profeta sofre influência direta do estado confuso em que se encontram sua nação e sua casa[10].

Kirkpatrick sustenta que Oséias casou-se com uma mulher idólatra, pecado esse associado à licenciosidade e ao adultério. Afirma ele que, a princípio, sua esposa era uma mulher pudica, porém, mais tarde, imiscuída na idolatria, ela tornou-se efetivamente uma pecadora[11].

Ao ter que lançar fora sua esposa infiel, Oséias pôde compreender porque Deus estava ofendido com seu povo  a ponto de lançá-lo fora de sua presença. De igual modo, ao receber de volta a infiel amada, o profeta compreende o amor e a compaixão de Deus pelos pecadores. Seu sentimento é o de Cristo quando perdoou a pecadora adúltera[12].

 



Contexto literário de Oséias 11



A estrutura do Livro de Oséias tem sido motivo de debates entre os estudiosos. O livro apresenta, pelo menos, dois problemas intrigantes. O  primeiro diz respeito à natureza da

narrativa contida nos três primeiros capítulos e o caráter de Gômer. Enquanto alguns intérpretes consideraram a estória como sendo simplesmente uma alegoria do relacionamento entre Deus e Israel, outros defendem, com mais plausibilidade, a literalidade do texto. Dentre esses últimos, alguns há que argumentam ter sido Gômer, a princípio, fiel, tornando-se, mais tarde, infiel. Outros, que ela já era infiel antes mesmo de ter sido desposada pelo profeta.

O segundo problema do livro encontra-se na relação do cap 3 com o cap 1. Apesar de não haver menção de filhos no cap 3, alguns intérpretes que ambos os capítulos são diferentes relatos do mesmo episódio. O mais provável, porém, é que o cap 3 seja uma seqüência do cap 1, onde Oséias, mesmo após Gômer ter sido infiel, foi instruído para recebê-la de volta[13].

O livro, a despeito do que pensam os estudiosos e intérpretes, apresenta um contexto literário que, até certo ponto, caracteriza um estilo de época que é comum em alguns trechos dos profetas Isaías, Jeremias e Ezequiel. Esse estilo não reflete uma generalidade; porém, retrata uma particularidade ligada às mensagens proféticas do oitavo ao sexto séculos a. C.[14].

Há que se procurar uma conciliação entre o capítulo 11 e os capítulos anteriores, uma vez que esse capítulo parece ser uma retrospectiva, até certo ponto diacrônica, do que se sucedeu ao longo dos capítulos anteriores. A proposta deste ensaísta é mostrar a relação desse capítulo com as vertentes anteriores e com o desfecho do drama exposto no livro, à luz do capítulo final (cap 14).

A introdução do livro é no estilo profético, com características marcantes, como já foi mostrado no primeiro parágrafo do presente ensaio – Debhar Yehovâh. O corpo do livro é um desenvolvimento dramático e ao mesmo tempo querigmático da mensagem central que o profeta anuncia ao povo do Reino do Norte[15].

Temas proféticos são abordados no livro de maneira intermitente, mas com regularidade, como que reiterando uma mesma mensagem, sempre de modo novo e com expressões que são incorporadas como seguindo uma metodologia áudio-visual, onde palavras e atos corroboram para entendimento da mensagem profética.

Jeová é o Deus que ama, porém faz justiça; castiga, porém ama com misericórdia (hesedh). Oséias 7. 13  revela  a  tristeza de Jeová  por se sentir em circunstâncias desfavoráveis



para efetuar a remissão de Israel[16].

Duas palavras são empregadas ao longo das mensagens de Oséias. A raiz de uma delas é (hsId) e aparece seis vezes como substantivo. A outra raiz é (rhm) e aparece quatro vezes na forma verbal do incompleto do Kal e uma vez como substantivo. Os dois termos são quase cognatos, uma vez que apresentam um dos verbetes que é comum tanto a um como a outro, que é misericórdia, compaixão.

Todavia, o primeiro traz à lembrança um tratamento – amabilidade, enquanto o segundo evoca um sentimento – compaixão[17].

A crise no casamento de Jeová com Israel, a irmã mais velha de Judá, ambas tipificadas em Ezequiel como esposas do Senhor[18], assume em Oséias uma agravante, já que o povo, representado pelos seus três filhos se prostituem, enveredando pelo caminho da mãe, símbolo da liderança comprometida com o culto idolátrico e com a falsa ideologia dos nobres e opulentos que viviam uma vida espiritual decadente e corrupta[19].

Além de uma liderança imprestável para solução dos problemas que se agravavam cada vez mais, Israel ainda se escorava nos amigos errados. Quando a nação era forte, e isso nos dias de Jeroboão II, quando o Senhor usou Jonas para dar alvíssaras de prosperidade e avanço nas relações comerciais e diplomáticas com as nações vizinhas, Israel viu nisso uma oportunidade de se apegar aos deuses que eram adorados e servidos por aquelas nações.

Ao verem as investidas bem sucedidas de algumas daquelas nações contra povos inimigos, Israel cobiçou seus deuses, tornando-os seus, num chocante pecado de adultério espiritual que seria representado mediante o drama vivido por Oséias na transmissão áudio-visual de sua mensagem. A apostasia passou da liderança ao povo e os cultos começaram a ser um fastio com requinte de nojo aos olhos do Deus Santo. Em Isaías, o Senhor retrata pungentemente esse quadro de um culto falido e apóstata[20].

A prosperidade tanto na guerra como na lavoura, desfrutada por algumas daquelas nações  vizinhas,  provocaram  uma  reação  de  inveja e ciúme nos que, a despeito de estarem

vivendo uma vida  normal  e abençoada  pelos efeitos sentidos após  as  mensagens apregoadas pelo profeta Jonas, queriam algo mais, queriam ser como elas. O pecado é assim; ele penetra com sutileza  e com muita suavidade.

Ao perceber as intenções do seu povo, Jeová começa a repreensão, permitindo baixa na lavoura e ataques esporádicos de nações vizinhas a Israel. Contudo, ao invés de recorrer à Lei e ao Testemunho (os Escritos)[21], Israel começou a “andar” e “conhecer” outros deuses, fruto de um arrazoamento sofismável: “Se eles são prósperos e bem sucedidos em tudo, seus deuses são poderosos; logo, cultuemo-los e, então, seremos como eles, prósperos”. Baal, um desses deuses, representados pelos vários baalins, torna-se comum nas oferendas feitas nos altos e nos bosques.

A prostituição já era uma realidade quando o Senhor começa a falar pelo ministério profético de Oséias. “Oferecia-se culto a Baal, o deus da terra adorado pelos cananeus”[22].

O cap 3 é curto, porém direto na sua proposição. O caráter profético-vaticinador de Oséias é apresentado neste capítulo, já que caracteriza uma predição para os dias do período messiânico, quando Israel e Judá buscariam o Rei Davi – o Messias, o Cristo.

O cap 4 é um misto de lamento e juízo, tendo seu “texto áureo”  no verso 6, onde o Senhor suspende a missão sacerdotal de Israel por ter o seu povo deixado de ser povo santo, até que busque com temor ao Senhor. Desse capítulo até o final do livro o estilo poético é invejável, com poemas tocantes e ricos em figuras de linguagem[23].

Expressões como “Efraim é um bolo que não foi virado” e “as cãs (cabelos grisalhos) se espalham na sua cabeça e ele não percebe”  demonstram a riqueza lírica da poesia hebraica onde força de expressão e sentimento se unem, encontrando um certo paralelo em Cântico dos Cânticos.

O capítulo 11 é tocante e nele Jeová deixa claro que nenhuma transgressão pode apagar tal amor que provém dele[24].

Jesus, em seu ministério, fez citação de um dos versos mais importantes do livro, chamando o povo de Israel à atenção para o que significa o verdadeiro amor. Ele citou Os. 6.6[25].



Tradução e estrutura de Oséias 11



            I - Um apelo à história[26] - Reflexões

            a) Quando (kî)

                        Israel era menino, eu o amei, (sobre o amor)

                                   e do Egito chamei a meu filho. (sobre a aliança)

b) Quanto mais (ken)

                        eu os chamava, mais se afastavam de mim; (sobre a apostasia)

                                   sacrificavam aos baalins, (sobre o adultério espiritual)

                                   e queimavam incenso aos ídolos (sobre a prostituição espiritual)

            c) Todavia (ve)

                        eu ensinei aos de Efraim a andar; (sobre a educação)

                                   tomei-o nos meus braços; (sobre a condução)

                                    mas não entendiam que eu os curava. (sobre a insensatez de 4.6)[27]

            d) Atraí-os (‘emshekhêm)

                        com cordas humanas, com laços de amor; (sobre os recursos de Yahveh)  

                                   e fui para eles como os que

                                   tiram o jugo de sobre as suas queixadas; (sobre o resgate)

                        e me inclinei para lhes dar de comer. (sobre a subsistência material e espiritual)

            II – Castigo iminente e inevitável[28] - lições para o povo

             a) Não retornarão (lô’ yâshûbh)

                        para a terra do Egito; mas a Assíria será seu rei; (lição de soberania divina)

                                   porque recusam converter-se. (coração impenitente – juízo iminente)

            b) Cairá a espada sobre as suas cidades, (ve hâlâh herebh)

                                   e consumirá os seus ferrolhos,

                        e os devorará nas suas fortalezas. (lição sobre a ira momentânea de Deus)

            c) Porque o meu povo é inclinado (ve‘ammî telû’îm)

                                   ainda que clamem ao Altíssimo,

                        nenhum deles o exalta. (lição sobre a inclinação da carne)



            III – Manifestação do Amor-Misericórdia-Aliança

            a) Como (’êykh)

                        te deixaria, ó Efraim? (A força do hesiedh)[29]

                                   Como te entregaria, ó Israel?

Como te faria como Admá? ou Zeboim?

                        Está comovido (ehpakh)

                        em mim o meu coração,

                        as minhas compaixões à uma se acendem. (a manifestação do amor ~WxnI = nihûm)

            b) Não executarei (lô’ ’e‘esseh)

                        o furor da minha ira; (a longanimidade)

                                   não retornarei para destruir a Efraim (a bondade)

                        porque eu sou Deus e não homem (a imutabilidade)

                                   o Santo no meio de ti (a santidade)

                                   eu não virei com ira. (o amor)

           

            IV – Manifestação do Propósito Divino

            a) Andarão após o Senhor; (’aharêy yehovâh yelkhû)

                        ele bramará como leão; (a reivindicação de posse)

                        bramando ele, os filhos tremendo, virão do ocidente. (o temor ao Senhor)

            b) Tremendo, virão como passarinho os do Egito, (yeherdhû ketsipôr)

                                   e como uma pomba os da terra da Assíria;

         e os farei habitar em suas casas, diz o Senhor. (consumação do Propósito)



O texto de Oséias 11 soa como uma canção de amor cantada por quem é traído, e figura no todo do livro como um oásis em meio a um deserto. O imutável sentimento de amor, misericórdia e compaixão que tem sua origem no coração de Deus é mostrado através do triste quadro de uma decadência espiritual vertiginosa. Todavia, o amor de Deus por Israel é maior que o pecado desse povo[30].

Pela exposição dos motivos e alegações contidas nesse capítulo, pode-se observar quatro divisões: dos vv.  1-4; 5-7; 8-9; e 10-11. A primeira divisão faz uma retrospectiva da libertação de Israel do Egito e realça o amor de Deus para com Israel, seu filho, em meio a uma ingratidão para com Ele, o Pai amoroso[31].

A segunda divisão retrata o caráter da “mãe” e dos “filhos” que seguem “adulterando e se prostituindo após outros deuses. Também é realçada aqui a rebeldia de Israel”.

A terceira divisão, em contraposição, revela que o Senhor “não desiste” da esposa infiel e dos filhos aleivosos. O Senhor não abre mão deles (hesedh).

A quarta divisão reassume a validade da promessa em torno da Terra Prometida e lança um olhar para o futuro, quando os dois reinos, do Norte e do Sul, estarão sob a égide do Único Rei – Davi, a saber, o Messias prometido.



Um apelo à história



O cap 11 inicia com uma retrospectiva já descrita como sendo a primeira divisão deste. O contraste é visto ao longo das reflexões que Jeová propõe ao seu povo. Primeiramente, ele evoca a lembrança do amor, em seguida, relembra a aliança feita com sangue, quando, com mão forte e terna, tira Seu povo da escravidão do Egito[32].

A expressão “quanto mais” é a tradução do termo hebraico (kên), ajustada         em  torno do  significante  mais  próximo  encontrado para esse termo. Quando, com o sentido

consecutivo, normalmente ele vem regido pelo advérbio ke, dando a idéia “quanto mais… tanto” ou ainda “assim como”.

Pode-se notar a diferença entre adultério espiritual e prostituição espiritual, o que é enfatizada pelos termos sacrifícios e incenso. Enquanto o envolvimento com sacrifícios tem uma idéia litúrgica, a idéia de incenso ressalta o caráter da intimidade com o deus do culto praticado, com festas e orgias, à semelhança dos que se entregaram às práticas sensuais dos midianitas-moabitas.

É tocante o desabafo de Yahveh ao refletir sobre os primeiros passos de Israel, enquanto é pintado um quadro com a figura de um pai ensinando seu filho a andar e, já adulto, não percebe que Ele é o Deus que cura as enfermidades do espírito assim como curava as mordidas de serpente no deserto.

O quadro continua a ser pintado, agora falando sobre o alimento que o tornaria forte e preparado a ponto de “engordar e dar coices” e virar as costas para o seu “possuidor”. O quadro culmina com a agravante da insensatez, marcada pelo “não entendimento”.

O verso 4 é romanticamente tocante, e lembra a aliança feita com seu povo, ao mesmo tempo em que aponta para a atração de Cristo para com sua Igreja, cujo povo será atraído a Ele.

           

Castigo iminente e inevitável



O verso 5 é o início da segunda divisão e fala da soberania divina sobre seu povo. Apesar de querer buscar saída no Egito, este seria conduzido à Assíria e aprenderiam a lição.

O verso 6 é um seguimento da idéia anterior, com a agravante da aflição que culminaria com a entrada do inimigo na cidade, caracterizada pela destruição das barras do portão, pondo um ponto final em seus planos de escape para o Egito. 

O verso 7 lembra a queixa de Yahveh sobre os que O honram com os lábios mas têm o coração distante de Deus.



Manifestação do Amor-Misericórdia-Aliança



O verso 8 inicia a terceira divisão e possui um termo que é empregado em contraste com o juízo inevitável de Deus, porém o acompanha. É como uma campainha que dispara quando o juízo é iminente. Foi assim na ocorrência do Dilúvio. Foi assim com Sodoma e Gomorra. As cidades de Admá e Zeboim servem de alerta e compungem a Yahveh de modo que suas “compaixões” (ehûmây) se revolvem e remexem por dentro dele[33].

A imutabilidade de Deus está ligada ao Seu caráter, assim como este último é aferido pela Sua Santidade.

O verso 9 fala da grandeza do caráter de Deus e Sua ética para com o a coisa criada.

           

Manifestação do Propósito Divino



O verso 10 inicia a quarta divisão, dando sinais do propósito divino e de sua consumação messiânica.

O verso 11 relembra o temor ao Senhor e fecha com chave de ouro  a declaração da certeza da consecução do Propósito, mediante uma expressão idiomática muito empregada para realçar a palavra de um rei em seus decretos: “Declarado por”, no caso em lide, por Jeová (ne’um yehovâh).

O verso 12 não faz parte do cap 11 no texto hebraico. É o início do capítulo seguinte. Todavia, há que se pensar sobre o caso, já que o sentido é mediador dos capítulos adjacentes. Ao mesmo tempo em que serve de desfecho apoteótico com alvíssaras para Judá, realça a insensatez de Israel que faz linha com as qualidades negativas esboçadas no capítulo 12.



O pecado de Israel e a ira de Deus



Os capítulos seguintes são uma demonstração do quanto o Reino do Norte se desviou dos propósitos de Deus. Israel que, juntamente com Judá, deveria ser uma nação santa e santificar o Nome diante dos outros povos e ainda ser um sacerdócio real para proclamar a majestade de Deus bem como Sua Vontade para todas as gentes da terra, entregou-se à pratica de pecados abomináveis como a idolatria e a prostituição.

Os dois primeiros versos do cap 12 são acusações verdadeiras de um Deus que tudo vê e sabe. Não foi somente Israel que desejou voltar para o Egito, a fim de escapar do castigo divino. Judá também tentou se esconder de Deus nas terras de Faraó, mas foi por Ele alcançado,  mediante  Nabucodonozor,  ferramenta  usada  por  Deus  para despertar os judeus

 quanto ao Seu propósito messiânico-redentor.

A punição seria para os dois reinos, do Norte e do Sul, pois perfaziam as qualidades outrora encontradas em seu progenitor – Jacó. O engano e as fraudes nas comercializações e na política eram constantes, e Israel se vangloriava por ter se tornado rico e, uma vez rico, poderia comprar a justificação para sua iniqüidade[34].

Na tentativa de recordar o esforço de Jacó em obter as bênçãos de Deus, o profeta traz de volta à luz a “esperteza” e a tenacidade com que Israel conquistou um nome glorioso diante de Deus e dos homens. É triste, porém, o esforço de Deus em conduzir Jacó mediante seus instrumentos humanos, como os profetas que, com visões e parábolas tudo fizeram para trazer Israel para junto do Senhor.

O cap 13 vai mais distante ao recordar a posição de Israel imediatamente após a prosperidade alcançada pelo ministério do profeta Jonas. Tendo-se tornado exaltado e como que modelo econômico para as nações vizinhas, agora Israel só acumula pecados[35].

Apesar de Israel se apegar aos ídolos e fazer romaria para beijá-los, o Senhor não se esqueceu dele. Todavia, o castigo virá. Um leão o acometerá e o Senhor será para eles como uma ursa roubada de seus filhotes. Israel está destruído porque abandonou ao Senhor.

O capítulo 14 é rico em apelos, e Israel deve confessar seus pecados ao Senhor para, então, oferecer o “fruto dos seus lábios” como oferta de louvor.

As promessas são as de um pai bondoso que deseja o melhor para seus filhos. Mas é preciso discernimento. A falta deste deveria ser substituída por sabedoria e entendimento.

O verso 9 lembra o final do Salmo 1, quando os justos serão recompensados e os ímpios perecerão[36].



Ingratidão para com Deus



            A mensagem do Livro de Oséias pode também ser resumida no capítulo 2. Ali Yahveh faz ameaças a Israel, não sem propor o arrependimento e o abandono completo às práticas de prostituição e adultério espirituais.

O Comentário de Oséias, encontrado em uma das cavernas de Qumran, faz uma exposição para os estudantes das Escrituras daquela época acerca do comportamento aleivoso de Israel. O comentarista, sobre o v. 8 desse capítulo, assim se expressa:



“A interpretação [do versículo] é que [eles] comeram, ficaram satisfeitos, e esqueceram a Deus que [os tinha alimentado] e [os] seus mandamentos, eles lançaram para trás, os quais Ele lhes havia enviado [por] Seus servos, os profetas. Mas, àqueles que lhes [fizeram] desviar, eles deram ouvidos e os honraram; como se eles fossem deuses, temeram-nos em sua cegueira”[37].



Sobre os versos 9 e 10, o comentarista assim expõe:



“A interpretação [do versículo] é que [Ele] os abateu com a fome e a nudez, a fim de que se tornasse um escárnio e provérbio à vista das nações nas quais se apoiaram para obter ajuda; mas eles não os salvarão das [suas] aflições”[38].



Sobre os versos 11 e 12, o comentarista assim se expressa:



“A interpretação [do versículo] é que eles [levam] as festas a se realizarem [segundo o calendário] da nação; e [toda a alegria] tem se tornado para eles em lamento[39].



Não foram encontrados comentários acerca dos versos seguintes, mas,  à luz do texto original, pode-se bem ver o propósito de Deus em falar à Israel mediante as palavras, ao mesmo tempo “duras” e confortantes, já que, a partir do verso 14, Yahveh derrama seu coração diante da esposa amada.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS





BARKER, Kenneth. et al. NIV Study Bible, Comentário de Oséias, Background, GR      Michigan, USA, 1984, pp. 1320-1337.



BROWN, Raymond. Entendendo o Antigo Testamento: Esboço, Mensagem e Aplicação livro    por livro, Trad. Hope G. Silva. 1ª ed. São Paulo: Shedd Publicações, 197 p.



KIRKPATRICK, Chas. In SAMPEY, John R. Coração do Velho Testamento: Um Manual       para Estudantes da Bíblia, p. 186.



LA SOR, William Sanford et al. Old Testament Survey: The Message, Form, and Background   of the Old Testament. GR, Michigan, USA, The Paternoster Press, pp 331-346.



SAMPEY, John R. Coração do Velho Testamento: Um Manual para Estudantes da Bíblia,    ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1934, 268 p.



SCHULTZ, Samuel J. A História de Israel no Antigo Testamento. Trad. João Marques    Bentes. 1ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1977, pp. 368-374.



[1] BARKER, Kenneth. NIV Study Bible, Comentário de Oséias, Background, GR Michigan, USA, 1984, p. 1321.
[2] BARKER, Kenneth. Op. cit., Author and Date, p. 1321.
[3] SCHULTZ, Samuel J. A História de Israel no Antigo Testamento. 1ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1977, p. 368.
[4] BARKER, Kenneth. Op. cit., Introduction to the Book of the Twelve, p. 1320.
[5] BARKER, Kenneth. Op. cit., Background, p. 1321.
[6] Sampey argumenta que, após o reinado de Jeroboão II, seguiu-se um período de anarquia e confusão, em que os reis “foram maus governadores, fazendo desaparecer a moral gradativamente”. Cf. SAMPEY, John R. Coração do Velho Testamento. 1ª ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1934, p. 186.
[7] BARKER, Kenneth. Op. cit., Background, p. 1321.

[8] Sampey defende que o casamento frustrado de Oséias fora preparado por Deus para instruir o seu povo acerca da sua justiça e da sua compaixão pelo pecador. Cf. SAMPEY, John R. Op. cit. p. 186.
[9] Sampey enfatiza que o coração de Oséias “estava tão oprimido pela dor e pela vergonha, mas estava desse modo preparado para descrever, de um lado, a hediondez da apostasia, de outro, a ternura e a compaixão de Jehovah para com seu povo infiel”. Cf. SAMPEY, John R. Op. cit. p. 187.
[10] SAMPEY, John R. Op. cit. p. 186.
[11] KIRKPATRICK, in SAMPEY, John R. Cf. SAMPEY, John R. Op. cit. p. 186.
[12] Enquanto no caso da mulher adúltera, Jesus a despede, dizendo: “vai, e não peques mais”, Oséias, ao receber Gômer de volta, e, interpretando o sentimento de Deus, deixa implícito: “vem, e não peques mais”. O trecho abordado é João 7.53-8.11 e não consta da maioria dos manuscritos mais antigos.

[13] BARKER, Kenneth. Op. cit., Special Problems, p. 1322.
[14] Lamentações de Jeremias constituem o ponto apical do estilo iniciado no Séc. VIII. Suas páginas são tristes e dolorosas para o amante de Sião. Todavia, as esperanças são de um adorador que confia no amor de Jeová para com seu povo. Os vv. 14-22 do cap 5 retratam o que está implícito em Os 7.9, onde Jeová diz: “Estrangeiros lhe devoram a força, e ele não o sabe; também as cãs se espalham sobre ele, e não o sabe”.
[15] BROWN afirma que “Oséias recebeu a incumbência de chamar Israel de volta a Deus; e ele o fez de modo eloqüente e com um apelo profundamente sensível e apaixonado”. Cf. BROWN, Raymond. Entendendo o Antigo Testamento, 1ª ed. São Paulo: Shedd Publicações, p.148.
[16] “…Quisera eu remi-los, mas falam mentiras contra mim” (Os. 7.13).
[17] BROWN argumenta que o termo-chave do livro é “hiesIed” e caracteriza “amor aliança”. Cf. BROWN, Raymond. Op. cit.  p. 148.
[18] Idem, p. 148.
[19] BROWN argumenta que “...Oséias insistia que os reis do reino do norte nunca poderiam ser líderes úteis, de um ponto de vista espiritual”. Cf. BROWN, Raymond. Op. cit.  p. 149.
[20] Isa 1. 11-15.

[21] “À Lei e ao Testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, nunca lhes sairá a alva” (Isaías 8. 20).
[22] BROWN informa que, quando a colheita era próspera, “os israelitas atribuíam esse favor generoso a Baal, em vez de ao Senhor Deus que lhes havia trazido à Terra Prometida”. Cf. BROWN, Raymond. Op. cit.  p. 150 e Os. 2.8-13; 7. 14-16; 8.11-13; 10.1-10; 11.1-2.
[23] LA SOR reconhece em Oséias o dom de expressão. Ele afirma: “Ele tem um dom de expressão, particularmente com figuras de linguagem, que poucos poetas do Antigo Testamento a ele se comparam”. Cf. LA SOR, William Sanford. Old Testament Survey, GR, Michigan, USA, The Paternoster Press, p. 339.
[24] Sampey declara que “O imenso amor de Jeová está bem expresso em Oséias 11: 8, 9: Como te deixaria, ó Efraim? como te entregaria, ó Israel? como te faria como Adamá? Por-te-ia como Zeboim? Virou-se em mim o meu coração, todos os meus pesares juntamente estão acendidos. Não executarei o furor da minha ira: não me tornarei para destruir a Efraim, porque Eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti, e não entrarei na cidade”. Cf. SAMPEY, John R. Op. cit. p. 187, 188.

[25] Os textos onde se encontram referências a essa passagem estão em Mt 9.13; 12.7 e Mc 12.33.
[26] SCHULTZ argumenta que, para uma perfeita combinação de amor e justiça, a solução era trazer à memória a lembrança do pacto. Argumanta ele que “aqui Deus é retratado como um pai compassivo, que ama a seu filho, ao passo que antes disso o pacto entre Deus e Israel fora expresso figuradamente como um laço matrimonial”. Cf. SCHULTZ, Samuel J. A História de Israel no Antigo Testamento. 1ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1977, p. 372.
[27] “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta entendimento...”.
[28] “Os versos que se seguem são discrepantes entre várias traduções, a começar pela LXX, que emprega katw,khsen (katokesen) como tradução de bWvy" (yâshûbh), e na afirmativa, quando no texto hebraico é negativo. A versão da NIV Study Bible traduz a passagem pelo texto massorético, porém fazendo uma indagação, quando no texto original seria uma afirmação. Outrossim, LA SOR vê o que seriam emendas textuais verificadas ao longo dos séculos, e afirma: “O texto de Oséias aparentemente têm sofrido mais do que qualquer outro livro do Antigo Testamento em edições e cópias através dos séculos...”. Cf. LA SOR, op cit. (Nota de Rodapé), p. 344.

[29] Este termo é empregado muito freqüentemente para exprimir o relacionamento em torno do concerto entre Deus e o seu povo escolhido. Em português, tem sido traduzido por misericórdia, bondade, benevolência e outros substantivos correlatos. Entretanto, o melhor sentido para este termo é dado na língua inglesa, ou seja, “loving kindness”, que significa “amorável benignidade”, como foi traduzido por Almeida em Jeremias 31.2. O termo em si estaria ligado ao que seria “laços de amor”, ou fidelidade conjugal, ou ainda “amor fiel”. Cf. CRABTREE, A. R. Teologia do Velho Testamento. 4ª ed. Rio de Janeiro: JUERP, p. 118-122.     

[30] LA SOR afirma que “rebelião alguma pode apagar  tal amor”.  E que “A passagem mostra então como a compaixão de Deus triunfa sobre a inconstância de Efraim”. Cf. LA SOR, William Sanford. Op. cit. p. 344.
[31] Sobre essa divisão, alguns há que consideram como BARKER, apenas duas divisões: vv. 1-11 e v. 12. Este ensaísta, porém, prefere a divisão ora esboçada no presente ensaio. Cf. BARKER, Kenneth, Oséias cap 11, op. cit. p. 1334.
[32] A imagem era tão forte e marcante para o povo de Israel que Mateus a emprega para calçar o argumento do nascimento de Jesus e sua procedência do Egito como que valorizando Sua presença com Seu povo ainda em formação naquela nação (Isaías 8. 20).

[33] Sobre esse drama divino, BROWN afirma que “...a despeito de sua rebelião e depravação, Deus os amava” e que “Mesmo quando o tinham entristecido, não era possível desistir deles...”. Cf. BROWN, Raymond, Op. cit. p. 150.
[34] Israel julgava que suas práticas aleivosas e mal intencionadas são seriam descobertas. Esquecera ele que o Senhor não se agrada de “balanças enganosas” e “pesos falsos”.
[35] Os versos 1-3 revelam o contraste entre o culto que honra a Deus e o culto prestado aos outros deuses. É chocante o paralelo encontrado entre o comportamento descrito nestes e nos versos seguintes com descrição paulina acerca dos gentios, registrada em Ro 1. 18-32.
[36] “Pois o Senhor conhece o caminho dos justos; mas o caminho dos ímpios perecerá” (Salmo 1.6).

38 QUMRAN COMUNITY: (Pesher Hôshêa‘) - Comentário de Oséias, itens 1-5, Trad. p/Inglês por HORGAN, M. em 1979.
[38] Ibid. itens 12-14.
[39] Ibid. itens 15-17.